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quarta-feira, 19 de março de 2008

O segundo filho [3]

"A tristeza me conforta

é mal que me faz bem..."

(Trecho, abaixo, não existente na história original, improvisado comendo chocolate, ouvindo Pink Floyd e refletindo sobre a própria vida)



Cansado de olhar pro céu tentando achar um conforto para sua alma e talvez a dor de cabeça que sentira, Caio levantou do balanço do playground de maneira súbita a qual assustou um de seus quatro amigos.
- Coé o papo Cacau? – disse um deles – Isso é remanescente da tua farrinha particular de ontem à noite? (risos)
- Nada Tiago. Só não quero ficar matando aula num lugar chato desses.
- Chatão você heim Cacau... Ei o que é aquilo lá na mercearia? – disse Tiago fazendo Caio virar a cabeça na mesma direção que a sua.
O resto parecia nem se preocupar com a conversa, eles estavam entretidos demais com uma garota de corpo visivelmente belo passando e jogando charme. Ou com o mendigo apanhando do dono da mercearia ali perto que o impedia de comprar um pacote de bolachas com seu dinheiro. Ele estava com as mãos estendidas para o vendedor, mostrando que ele iria pagar, todavia o preconceito foi burro e cego fazendo o vendedor dar umas boas vassouradas no braço e na cabeça e posteriormente nas costas quando o pidão se encurvou e começou a gemer de dor...
Todos se aquietaram por um instante, suspiraram e sentiram um leve gelo na barriga quando viram que um deles atravessou a rua e derrubou o agressor no chão. Era Caio e estava bufando e vermelho de nervosismo e indignação.
- Eu não vou admitir... – disse com voz tremula e ofegante - que você bata em um homem que irá pagar pela comida que necessita.
Se levantando, Seu Olavo tomou novamente a vassoura em suas mãos e deu uma estocada no estomago de Caio que o fez gemer e se por de joelhos.
- Seu moleque. Não se meta no que não é chamado. – disse erguendo a vassoura e acertando no rosto de Caio.
Os outros estavam atentos, mas realmente não estavam preocupados com a saúde do colega. Achavam que ele merecera a surra pela atitude vergonhosa que ele tomou. Saíram de lá para não serem reconhecidos como amigos do vergonhoso pseudo-herói.
Com dificuldade para abrir os olhos por causa da dor e do sangue em seu rosto, Caio se esforçou para enxergar e achar uma brecha para escapar acertando a boca do estomago do Seu Olavo e correndo de lá com a mão no rosto. “É tudo culpa sua...”, ouviu ainda correndo e ao olhar para trás viu o velho ser novamente espancado.


continua em O segundo filho [4]...

segunda-feira, 10 de março de 2008

Silêncio [2]

Após o disparo, Carlos levantou-se da poltrona vermelha e surrada do escritorio do velho, guardou a arma na cintura e foi verificar o corpo. Sim. Ele estava morto. Marcos, o traidor, o Judas em seu ponto de vista, um ex-amigo, com uma alma não mais presente no mundo físico. Depois da descoberta de sua traição, Carlos não mediu forças e nem teve piedade. Algo tinha que ser feito quem quer que fosse o seu alvo. Ele não foi perdoado como qualquer um que se opunham as suas idéias. Carlos não seria mais contrariado. Seus objetivos já podiam voltar a ser concluídos. Seu plano de tirar o mundo dessa imensa depressão que eles chamam de vida, sem nenhuma grande aventura ou grandes objetivos. Ele sim tinha um sonho, e esse sonho era fazer as pessoas sonharem mais uma vez, pois elas estavam tão consumidas pela alienação nossa de cada dia, que não seriam capazes de levantar um dedo sequer para pensar: Será que a vida não vai passar disso? Vida e morte? Vida ou morte. Ele pensou diferente quando quis transformar sua idéia em algo físico. Ele tentou fazer sua vida virar uma idéia, porque as idéias não costumam morrer.
Teve a impressão de ter visto a sinueta de alguém na porta, abaixou a cabeça e continuou a apreciar o sangue de seu amigo no carpete.
- Entra Douglas!
- Era o Marcos mesmo, quase não posso acreditar! - disse o ser magro com pele alva e suado feito um porco entrando pela sala tremendo.
- É, mas não era surpresa, essa história do Marcos já é bem veeeeeelha.
Um celular toca. A sala mergulha por mais alguns instantes em silêncio. Carlos vasculha o cadaver, acha o telefone e o atende.
- Marcos? Alô?
Silêncio.
- Alô, Marcos? So eu o Tavinho. Olha, guenta mais quinze minuto aí que já tamo chegando na vila...
Silêncio.
- Marcos?
- Acho que ele não pode atender agora.
- Quem ta falando? Ca... Carlos? Cadê o Marcos? Ele ta do teu la...
- Cala a boca e me escuta imbecil. O conselho vai saber dessa presepada de vocês. E pra você botar fé, o Marcos ta morto aqui do meu lado e vocês são os proximos.
- Carlos seu filho da puta! Eu vo te pega ta entendendo...
Carlos desligou o telefone e se levantou, quando o telefone começou a tocar denovo ele o jogou no chão e deu um tiro.
- Douglas! Pega a gasolina vamos botar fogo nessa porra.



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- ABRE LOGO ESSA PORTA PORRA!
Do outro lado ainda com a arma na mão Carlos acendia um cigarro, enquanto Douglas limpava os oculos com desespero após ter amontoado todos os galões de gasolina.
- ABRE ESSA PORTA CARALHO! A GENTE VAI METE O BICHO EM VOCÊS! - insistiam as vozes do lado de fora do Covil das Loucas.
- É a policia? - peguntou Douglas
- Não. - disse Carlos - Parece a voz do Tavinho.
- E o que esse idiota veio fazer aqui?
- Eu imajino
Carlos explicou que o plano de Marcos de tentar mata-lo dera errado. Carlos havia descoberto tudo por fonte altamente confiaveis a ele e agora os dois tinham que sair dali sem serem pegos pelos seus ex-companheiros.
- CARLOS! VOCÊ NÃO VAI SE SAFA DESSA SEU DESGRAÇADO! EU VOU TE PEGAR PESSOALMENTE!
- Vai Douglas. Deixa que daqui eu assumo. Toma as chaves do matadouro e pega o meu diário. Talvez eu não volte pra casa hoje.
Pegando uma cadeira sentou-se no meio do salão em frente ao corpo do amigo que arrastara do escritório, equanto o outro escapava pela saída secreta que o velho costumava usar para escapar da policia, "saudade do papai" pensou ele.
Um estrondo e as portas do salão se abrem. Carlos abre um sorriso.


continua em Silêncio [3]...

domingo, 9 de março de 2008

O segundo filho [2]

"Existe lá um poço
No poço tem água
A água supre o gado
o homem e sua familia

Antes não havia fome
Não havia homem
Pra acabar com comida
E secar terra

Depois o gado morre
A planta morre
A terra morre
E o homem vai embora atrás de outro poço"
(Poço - Anderson Fattori [acabei de improvisar])

"o nordeste foi a minha inspiração
mas a raiva é do mundo em ques
tão"


– Quem julgar? Como o fazes pai? Hão de lhe pagar aqueles que se rebelarem contra a voz que me deste? Como o farei?
– Fará o que seu coração mandar. Seu coração é meu, então faça tudo que lhe couber ser certo, que fará minha vontade. Minha vontade é a sua.
– Então faça de mim seu corpo, que eu farei de você meu guia.
Em seguida surgiu um caminho em direção a luz, logo surgiram passos por esse caminho e Nevá se fez em uma figura humana e se pôs a andar. Quando chegou à porta que separava os planos dimensionais, sentiu uma dor muito grande, sentiu frio, calor, medo, raiva, ódio, e caiu de joelhos.
– O que acontece pai? O que é isso que está acontecendo comigo?
– Você está se tornando humano.
Nevá arregalou os olhos se apoiando no firmamento, sentia como se o peso do mundo estivesse em suas costas. Pra que tanto ódio?
– Nevá, você, ao contrario do primeiro, não nascerá santo, habitarás um coração já maduro. Quando desci o filho até a terra em forma de santo, desde seu nascimento, ele fez o que lhe foi certo, mas não o que estava devidamente planejado. Ele amava os homens, mas seu amor por eles era tão límpido, que ele se deixou enganar facilmente. Você, bem diferente dele, terá malicia no seu coração para poder sobreviver, pois os homens de hoje não tem mais fé, não acreditam uns nos outros. Eles se corromperam entre eles mesmos para tentar ser mais poderosos que seus próximos. Eu não os culpo, desde o primeiro contato com a serpente, lhes foi implantada uma semente que se tornou um ramo de espinhos envolvendo seus corações. Eles têm medo de se aproximar uns dos outros por causa desses espinhos. Você terá de ir lá e cortar os ramos de quem for possível.
– Mas por que dói tanto pai? Esse ardor que me consome por dentro é como se eu estivesse respirando laminas e elas estivessem me retalhando por dentro. Por que tem que ser tão angustiante assim?
– Isso você irá descobrir depois sozinho. Filho, não se esqueça, habite o coração de um homem nobre. Nem pobre, nem rico. Nem mal, nem bom. Nem mais forte que os outros, ou mais esperto, mas sim, aquele que pensa nos outros olhando pra si, e não teme os problemas que enfrenta, esse tipo de coração é difícil de ser penetrado, mas tenha certeza que isso será sua melhor arma. Se tens duvidas agora, não se preocupe, tudo ira se esclarecer melhor com o tempo, agora vá e seja cuidadoso em sua escolha, lembre-se que eles são corruptos em alma. Com lagrimas nos olhos Nevá olhou para a terra e pensou: “Há de haver alguém que se salve” e se jogou no abismo.




continua em O segundo filho [3]...

sexta-feira, 7 de março de 2008

O segundo filho [1]

"Não podemos perder de vista os nossos sonhos"



Eram muitas aquelas pausas pensativas sobre a vida, a escuridão consome uma alma tão rápido quanto o fogo consome uma folha de papel. Amargamente sentia seu rosto vibrar e seus olhos perderem o foco. Sentia ainda mais, a agonia que era sentir como se nada fosse dar certo na vida, pensava demais, bebeu mais um gole do amargo vinho de seu pai e tentou ficar o mais sóbrio possível.
De vez em quando ria quando se surpreendia pensando desse jeito e dançava bolero sem nem saber como é a sinfonia. Beijou o véu que cobria os caroços de esperança, pronto para brotar e se tornar algo que ele realmente almejava.
Uma voz escapou do inconsciente absoluto e sussurrou em seus ouvidos como uma brisa serena ao sábado de manhã.
- Você. O que sabe do que pensa quem é? Você não é você e é um mistério você não saber disso. Até parece que você sabe quem realmente é. Se soubesse acha que eu ainda estaria aqui?
Sem reação nenhuma de alguma duvida e tendo certeza de que ele não entendera nada, a voz continuou.
- Você me acha bonita nesse vestido? E qual o melhor batom? Já teve medo da morte algum dia? Você sente arrepios quando está só no escuro? Quem é você?
Passou a mão no rosto diversas vezes até lembrar que seu nome era Caio. Estava na sala de sua casa e seus pais haviam viajado a negócios. A luz do barzinho acesa dando aquele aspecto fúnebre ao ambiente.
Ouviu um som, estrondoso, de um jeito que fez as taças tremerem. Qualquer um diria, “Um avião”, mas era diferente, pelo menos para Caio. Começou a notar o chão desabando sobre seus pés e em seguida, o mundo todo estava do tamanho de uma bola de gude. As luzes do espaço estavam diferentes, pareciam se mexer. Haviam muitas nebulosas de diferentes cores que pareciam dançar no espaço infinito. Mas um calafrio enorme tomou Caio. Percebeu que a interação e o sincronismo em que as luzes se mexiam eram realmente peculiares. As luzes vermelhas só se moviam depois que as amarelas tocavam as azuis, ou as roxas, que só davam rodopios quando as verdes paravam de se mexer.
- É meu caro, aposto que você nunca viu isso acontecer né? – Disse para si.




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