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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Silêncio - [9]

Ainda com o capuz na cabeça Marcos foi puxado pra fora da van com tanta força que chegou a cair no chão. Com as mãos atadas e uma corda curta com as extremidades amarradas em seus dois tornozelos para dificultar uma possível fuga, mal podia se reerguer. Um dos bandidos o carreou pelos cabelos até ele conseguir se firmar, todavia ele nem sentiu tanta dor, pois sentia uma tontura imensa que distorciam certas sensações. O maximo que podia perceber da realidade era alguém falando algumas palavras embaralhadas, devia ser efeito de alguma droga que eles teriam dado para Marcos dormir a viagem.
Alguns passos a frente ele desconfiou que o chão se deslocava pra esquerda e pra direita de maneira nauseante até finalmente vomitar no pé de alguém, mas não foi como ele queria, se sentiu tão enjoado que nem conseguiu pensar se sacaneou alguém ou não, só pensava em como a vida dele tinha chego a esse ponto. Foi puxado a força e jogado contra um assento de madeira. Ao lado outras pessoas foram sentando e se espremendo como se tivesse lotando o lugar. Marcos tinha todo esse orgulho de sempre andar com as pessoas certinhas e limpinhas se afastando dos sem teto, mas quando sentiu cheiro de suor fermentado daquele que se sente em pessoas que não tomam banho faz três meses, Marcos vomitou mais cinco vezes.
Um grito dizendo ok, uma buzina estrondosa e ronco de um motor típico de embarcações da Amazônia que faziam Po po po po po po...
Marcos percebeu que estava num barco - um barco muito lotado e fedorento - antes de desmaiar.


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Uma cutucada na costela.
- Pssssiu...
Marcos sentia tanto medo que não conseguia responder.
-Ei, psiu. Tá acordado aí? - Uma voz rouca sussurrava em seu ouvido direito.
Quem diria? Tamanho marmanjo do Marcos se cagando de medo e ainda sem resposta.
-Tu ta sabenu pra onde nós ta inu?
- Pra um parque de diversões é claro, babaca - disse alguem em seu ouvido esquerdo.
- Disso eu sei né? Mas de repente tu pudia sabê
As lagrimas de Marcos encharcavam a venda em seus olhos em um choro silencioso no banco daquele barco barulhento que cortava a calmaria noturna do rio, causando tensão a todos dentro do barco de tão delicada, como se o barco flutuasse no ar sem atrito algum. Marcos nem ouvia mais o barulho do motor de tão alto que seus pensamentos eram, de tão forte que era seu desejo de acordar desse pesadelo em sua cama macia, ir até a cozinha e tomar um leite morno, como o que sua mãe fazia quando Marcos era uma criança assustada com o vento na janela, para ele voltar a dormir. Lembrou de sua avó e de como ela era boa com ele quando dava o dinheiro da semana e quando ajudava ele a resolver os problemas na diretoria, passando a mão em sua cabeça por qualquer motivo que fosse, livrando-o das detenções...
- To cum fomi! Quanu será que nós vai cumê? - disse a voz ao ouvido direito.
- Comer? - indagou uma voz com um tom de sarcasmo sacal - Vocês terão o que comer se realmente tiverem coragem de comer, heh!
Risos se misturavam com o "popopo" estridente do motor rústico, mas Marcos conseguiu contar quatro contando com a voz que havia se pronunciado em sua frente. Pensou em perguntar já que o silêncio humano havia sido quebrado.
- Pra onde a gente ta indo heim!? Seus babacas! Pra onde vocês tão levando a gente! - as palavras saíram atropeladamente nervosas de sua boca e não tinha certeza se realmente ele tinha falado o que queria do jeito que queria, mas já era um começo.
- Heh! Pra uma ilha encantada. A ilha das araras-vermelhas que fica a uma distância de setenta e oito quilômetros, mar adentro, do município de Salinópoles.
Marcos engoliu seco e não conseguiu evitar o desconforto em seu rosto, que com certeza, o homem a sua frente estaria observando e achando graça disso.
- E o que a gente vai fazer lá, heim? - perguntou a pessoa que estava à sua direita.
Mais risinhos.
- Brincar de "pira se esconde". - mais uma vez as palavras eram postas em um sarcasmo ácido – Agora chega de conversinha! O próximo que der um pio vai levar um tiro na testa e virar comida de sucuri.
O barco mergulhou novamente em um silencio humano. Parecia que nem os bandidos falavam entre si e a sensação de desconforto tomava a embarcação na medida em que o tempo passava e que só se ouvia a batida do motor em sincronia com o coração acelerado na garganta de Marcos. Tudo parecia tão injusto pra ele, será que veria novamente os seus professores, os colegas coadjuvantes de sua sala, Marina, a menina que roubava sua atenção e sono todos os dias, Douglas seu melhor amigo, sua mãe, sua calorosa avó. A única certeza era que a vida dele não seria mais a mesma, claro que a morte um dia chegaria, mas a incerteza se seria agora ou depois de voltar pra casa o deixava mais inquieto e solitário dentro de sua mente, preso na batida hipnótica do motor. O tempo andava mais devagar ou mais rápido? Já nem tinha mais noção de quanto tempo estava pensando em como a vida seria bela quando retornasse, tinha menos noção ainda de quantas horas estava no barco...
O motor desliga e isso tira a calmaria e seu coração torna a tomar a garganta com mais força ainda.
- Eu quero todo mundo caladinho, – disse uma voz quase murmurando – porque se alguém der um pio vai levar facada no pescoço.
Ouviu de longe um som de motor de lancha. Seria outro barco de bandidos ou poderia ser a policia, mas quem quer que fosse não daria para pedir por socorro sem enxergar nada, era uma desvantagem que tirava qualquer esperança de Marcos. Se pelo menos não estivesse com as mãos atadas ás costas e os pés presos, mas era em vão. Sua única arma era sua voz mesmo. E o que tinha a perder? Mesmo não sabendo o que estava acontecendo resolveu arriscar no grito de socorro mais intenso de sua vida, até gastar todo o ar em seus pulmões cheios.
- SOCORRO! POLICIA...
Sua boca foi tapada por um dos bandidos com tanta força que sentiu seus dentes entortarem pra dentro aos poucos.
- SEU FILHO DA PUTINHA! – disse um murmuro enfurecido segurando-se para não se tornar um berro na cara do moleque.
Com um baque forte em sua cabeça Marcos desmaiou outra vez.








Desculpem a demora. Como pedido de desculas escrevi bastante dessa vez e espero que as mais de 1000 palavras nesse post agradem a quem acompanha essa historia

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